Estar magro é estar na moda?
- Dra. Patrícia Almeida - Gastro e Hepatologia
- há 6 dias
- 2 min de leitura

Vivemos um momento curioso e preocupante.
A magreza voltou a ser celebrada como tendência estética, quase como um requisito social. Redes sociais, revistas e até conversas informais reforçam a ideia de que estar magro é sinônimo de disciplina, saúde e sucesso. E, paralelamente, nunca se falou tanto em “canetas emagrecedoras”, (medicamentos como os agonistas de GLP-1) que são ferramentas incríveis no combate à obesidade e ao diabetes, e que quando bem indicados, mudam vidas, mas que também podem colocar a saúde em risco quando usados sem orientação ou de maneira indiscriminada.
Como médica, tenho acompanhado esse movimento com um misto de interesse e inquietação. Interesse porque, de fato, vivemos um avanço científico extraordinário: hoje temos medicamentos capazes de reduzir riscos cardiovasculares, melhorar resistência à insulina e transformar o tratamento da obesidade. Mas inquietação porque, ao mesmo tempo em que celebramos essas conquistas, vejo pessoas usando essas medicações como atalhos estéticos, sem diagnóstico, sem acompanhamento e, principalmente, sem entender que saúde vai muito além do peso exibido na balança.
A ilusão da “magreza saudável”
É preciso dizer com clareza: estar magro não é, necessariamente, estar saudável.
A saúde humana é complexa, multifatorial e profundamente individual. Existem pessoas magras com doenças graves do fígado, do metabolismo ou dos hormônios… Ainda assim, o discurso dominante tenta reduzir tudo a um único número — o peso — como se ele fosse capaz de traduzir toda a história de um corpo.
O problema não é o medicamento. É o mau uso.
Tratar obesidade é tratar saúde. E quando esses medicamentos são usados dentro de um tratamento estruturado, com acompanhamento, eles são ferramentas valiosas e muitas vezes salvadoras.
Mas o problema é o uso desconectado da realidade clínica.Pacientes que compram remédios pela internet, que usam dosagem inadequada, que não fazem exames de rotina, que não entendem que emagrecer rápido demais pode sobrecarregar o fígado, alterar hormônios e causar danos silenciosos.
Na hepatologia, vejo diariamente os efeitos de escolhas feitas no impulsos:
– pessoas magras com esteatose significativa;
– pacientes com aparência “saudável” e fibrose avançada;
– jovens com o fígado sobrecarregado por dietas extremas, perda de peso acelerada e medicamentos usados sem critério.
Ser magro não protege o fígado. E, muitas vezes, pode mascarar problemas importantes.
Saúde não é um corpo ideal ou magro. É um corpo possível.
É preciso abrir espaço para uma conversa mais honesta:a busca pela magreza não pode apagar a necessidade de cuidado integral.
Saúde é exame em dia, é entender o impacto dos hormônios no fígado, é respeitar a genética individual.
Se existe algo que aprendi ao longo da minha trajetória na hepatologia é que o corpo sempre fala, cedo ou tarde. E quando ignoramos seus sinais em nome de um padrão estético, o preço costuma ser alto.
Por isso, a pergunta que fica não é: “estar magro está na moda?”
A pergunta que realmente importa é: seu estilo de vida está cuidando de você ou apenas te atendendo esteticamente?
Enquanto médica, sigo reforçando o essencial: há maneiras seguras e eficazes de emagrecer, mas elas começam no consultório, não nas redes sociais. E enquanto parte da sociedade, afirmo que precisamos mudar a narrativa.





