“Eu resolvo sozinho.” O custo silencioso da automedicação para o fígado.
- Dra. Patrícia Almeida - Gastro e Hepatologia
- há 1 dia
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Existe uma frase que escuto com frequência no consultório.
“Achei que não precisava procurar um médico. Resolvi tomar um remédio por conta própria.”
Quase sempre ela vem acompanhada de outra:
“Era um remédio comum.”
Talvez esse seja um dos maiores paradoxos da medicina. Quanto mais familiar um medicamento parece, menor costuma ser a percepção de risco. Afinal, se está na gaveta de casa, é vendido sem receita e milhões de pessoas o utilizam todos os dias, por que faria mal?
Mas é justamente aí que mora o perigo.
Na Hepatologia, convivemos diariamente com uma realidade pouco conhecida fora dos hospitais: medicamentos aparentemente simples também podem causar lesões hepáticas graves quando utilizados de forma inadequada. E, infelizmente, alguns pacientes chegam até nós quando o dano já está instalado.
Como hepatologista, aprendi que o fígado é um órgão extremamente generoso. Ele suporta muito mais do que imaginamos. Mas, justamente por permanecer em silêncio durante tanto tempo, quando finalmente demonstra que algo não vai bem, nem sempre há espaço para erros evitáveis.
Quando o remédio mais comum vira um problema
Se eu perguntasse qual medicamento mais preocupa um hepatologista quando utilizado de forma inadequada, muita gente imaginaria um remédio “forte” ou altamente controlado.
Na verdade, um dos principais responsáveis por casos de insuficiência hepática aguda relacionada a medicamentos em todo o mundo é justamente um dos analgésicos mais presentes nos armários das famílias: o paracetamol.
Quando utilizado nas doses recomendadas, ele é um medicamento seguro e extremamente eficaz. O problema surge quando a falsa sensação de segurança leva ao excesso.
Isso pode acontecer de diferentes formas: aumentar a dose porque a dor não melhorou, repetir o medicamento por vários dias sem orientação médica, associá-lo ao consumo de álcool ou utilizar diferentes remédios para gripe e dor que já contêm paracetamol na composição, sem perceber que as doses estão sendo somadas.
O fígado recebe toda essa carga em silêncio.
E, muitas vezes, continua funcionando normalmente até que deixa de conseguir compensar.
O preço da pressa
Eu compreendo por que tantas pessoas recorrem à automedicação.
Vivemos dias corridos. Nem sempre é fácil conseguir uma consulta. Muitas vezes parece mais simples resolver sozinho um sintoma que parece pequeno.
O problema é que, na medicina, nem sempre o maior risco está no medicamento. Às vezes, ele está na doença que permanece escondida enquanto o sintoma é temporariamente mascarado.
Ao longo da minha trajetória na Hepatologia, acompanhei pacientes que nunca haviam apresentado qualquer doença hepática conhecida e evoluíram com insuficiência hepática aguda após dias tentando controlar uma dor persistente por conta própria.
São histórias que marcam profundamente quem trabalha com transplante hepático.
Porque muitas delas poderiam ter tido um desfecho diferente se o organismo tivesse sido ouvido um pouco antes.
O que realmente merece atenção
Automedicação não significa apenas tomar um medicamento sem receita.
Também significa acreditar que aumentar a dose fará o efeito aparecer mais rápido. Significa manter o mesmo remédio por dias ou semanas porque ele “sempre funcionou”. Significa esquecer de mencionar ao médico aquele comprimido que parece simples demais para fazer diferença.
Nenhum medicamento é completamente inofensivo.
Todo remédio exige do organismo um trabalho. E o fígado é o principal responsável por metabolizar praticamente tudo o que ingerimos.
É por isso que ele costuma ser um dos primeiros órgãos a sofrer quando essa relação deixa de ser segura.
Na prática, como reduzir esse risco?
Algumas atitudes simples fazem uma enorme diferença e ajudam a proteger o fígado no dia a dia.
Nunca ultrapasse a dose máxima recomendada, mesmo quando se trata de medicamentos vendidos sem receita. Mais nem sempre significa melhor.
Leia a composição dos medicamentos para gripe, resfriado e dor. Muitos deles já contêm paracetamol, e a associação inadvertida de diferentes produtos pode levar ao excesso sem que a pessoa perceba.
Evite consumir bebidas alcoólicas enquanto estiver utilizando medicamentos metabolizados pelo fígado, principalmente analgésicos e anti-inflamatórios.
Se um sintoma persiste por mais de alguns dias, procure entender a causa em vez de apenas aumentar a medicação. A dor é um sinal do organismo e merece ser investigada.
Informe sempre ao seu médico tudo o que utiliza, incluindo medicamentos de uso eventual, fitoterápicos, suplementos e produtos naturais. Muitas interações só podem ser identificadas quando a história está completa.
Depois de tantos anos cuidando de pacientes com doenças hepáticas, aprendi que o maior problema raramente é um único comprimido.
Na maioria das vezes, é a soma de pequenas decisões tomadas na tentativa de resolver tudo sozinho.
O fígado trabalha em silêncio para metabolizar tudo o que colocamos no organismo. Quanto mais conscientes forem essas escolhas, menor será a chance de sobrecarregá-lo desnecessariamente.
Cuidar da saúde também significa reconhecer que nem todo sintoma precisa ser resolvido imediatamente, mas todo sintoma merece ser compreendido. Muitas vezes, a decisão mais inteligente não é tomar mais um comprimido, e sim procurar orientação antes que um problema simples se transforme em uma doença muito maior.
Porque o fígado continuará fazendo a parte dele, silenciosamente. A pergunta é: nós estamos fazendo a nossa?




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